A rua estava escura, o chão molhado. Tinha acabado de chover, e as pedras da calçada reluziam como se fossem diamantes, reflectidas pela lua cheia que insistia em aparecer,timida por entre as nuvens.
Mais uma noite pensou ela, mais uma noite...
Como iria sobreviver, como iria arranjar forças, ou alguém que a fizesse viver mais um dia. Andou quase desnuda e descalça, cheirando a vida de outros, sentindo o calor de outros, mas o seu próprio calor ja não o sentia há muito tempo. Deixou de viver, deixou de ser humana.
Viu o seu reflexo na montra de uma loja, o que existia de mulher, o que existia de beleza, tornou-se uma sombra. Já não revia nenhuma beleza, a beleza que tanto lhe falavam. Viu-se sozinha, e com ânsia de sobreviver.
Resolveu caçar, mas o corpo não obedeceu... Deixou-se ficar a sugar tudo o que a pudesse tornar novamente humana, e não o espectro que vivia naquele corpo. Sentiu o frio da calçada, sugou a luz que vinha da lua cheia, e fechou os olhos, e ao fecha-los tornou-se novamente mulher, e voou livremente na sua escuridão