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Não tenhas medo de mim. Eu só preciso de ti. E basta dizeres «chega» para que me afaste e não volte sequer a telefonar-te. Acredita. Não tenhas medo de mim. Esta aflição não é de agora, tu não tens culpa de nada. Se quiseres podes encostar a tua cabeça ao meu peito e chorar todas as lágrimas. Eu choro sozinha, eu sou corajosa. Foi logo no primeiro beijo que me entreguei e me perdi. Tu não tens culpa de nada, sossega. Tu chegaste muito tarde, só agora. E o primeiro beijo foi há muito. Não espero nada. Nem em sonhos. A única coisa que acontece é isto continuar sem que eu saiba como, e eu sei que nem o teu amor, se ele existisse, me poderia salvar. Eu não preciso de ti. Eu só preciso de ti. Não tenhas medo. A culpa é minha. Não tive cuidado. Julguei que o amor era outra coisa. Acreditei nas palavras que me disseram. Ninguém me disse que preciso ter cuidado. Acordamos de manhã, abrimos os olhos, reconhecemos o quarto em que vivemos. Quando me entreguei foi para sempre. Não tive cuidado. Levaram-me para longe, para longe do meu quarto. Disseram-me: «O mundo é todo teu, agarra-o» e eu acreditei que assim era. Que bastava estender uma mão, suspirar um desejo, que o tempo existia por estar à minha espera. O meu amor estava dentro de mim e ninguém tinha morrido. Eu própria me julguei imortal, tive a certeza, enquanto o mundo abria as suas janelas, uma a uma, para que o contemplasse. O mundo e eu, nós dois, e o meu amor que os ligava. Agora pode parecer estranho, mas então nada era estranho. Eu era uma alegre criança cheia de vontade de viver. Não era preciso ter cuidado. Agarro com força a pequena almofada que tenho entre os braços e penso em ti. Não sei nada. Vens a mim ao de leve e depois largas-me. Para te ver a cara tenho que te surpreender em movimento, fechando uma janela, calçando um sapato, saindo do carro. Tu não eras quem eu esperava que fosses. Estamos sempre a imaginar isto e aquilo e sempre a confundir isso com o que está para vir e vem de outra maneira. Eu pelo menos. Eu tenho uma enorme vontade de te dizer tudo numa só palavra e depois ficar calada, não dizer mais nada. Eu quero que sejas só tu a saber. Eu tenho a infinita certeza de que me estás a ouvir, não sei como. Há aqui qualquer coisa de mágico, uma invocação por palavras que nos transporta para um lugar sossegado. E de repente tudo se desfaz. Não posso deixar de te dizer que não te quero a meu lado, nem por perto. Que de repente há um barulho em que as palavras se transformam, assustadoras, que quero ficar sozinha, longe de ti, como agora, muito longe aqui fechada, agarrada à almofada pequena. Tu és o primeiro. És quem vem para me roubar de mim.
Gosto de pensar assim em ti.
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Ja ta :p
amt ptzzzz